Este meus amigos, é um conto diferente... Não se trata de um conto fofo com final feliz, nem longo demais a ponto de você se cansar, é apenas um conto interessante e juro que é real cada linha aqui escrita. Pode duvidar se quiser, não vou negar-lhe teu livre arbítrio, mas só peço que leia até o fim, este é o pedido de um ilustre narrador.
Numa cidadezinha, escondida de todo o mundo, não tinha mais que 70 mil habitantes. Uma enorme serra a protegia do mundo lá fora. Nossa história começa na vida de duas garotas, muito amigas, porém extremamente diferentes.
A mais velha era alta, loira, com corpo um pouco robusto, mas suas formas eram leves e delicadas. Seu rosto fino e feminino e teu sorriso bem traçado fazia todos se encantarem com ela, mas por dentro ela era uma bomba pronta para explodir, atrevida e não respeitava ninguém que não lhe fosse importante. Tinha muitos homens ao seu redor a bajulando, mas sua família nem tanto... Uma princesa imersa nos ventos amargos da solidão, e que tinha como amiga uma garota completamente diferente.
A outra, mais nova e morena. Seu corpo não era lá bem desenhado, apesar de ser magra na medida do ideal. Seu rosto não era tão belo, pois o sol o maltratara um bocadinho, apesar disso sempre sorria com o metal lhe atravessando e cortando os lábios carnudos vez ou outra, e ela nem se importava. Tinha muitos amigos e sempre fora animada e uma boa pessoa... Porém ninguém sabe o mal que a espreita. Ela tem problemas consigo mesma, ou melhor, falando, com sua pessoa interior. Ataques de tristeza e depressão leve são alguns sintomas, e ela desabafa tudo na sua paixão que é a escrita, ela sempre está imersa em livros.
A loura sempre maltratava a morena por ser tão diferente, vivia tentando mudar a garota, criticando seu modo de vestir, de agir, de pensar, e até mesmo criticava seus sonhos, dizendo que eram tolos e estavam longe da verdade, e para piorar o sofrimento da morena, a outra sempre tentava impor suas vontades, cortando as asas de liberdade da mais nova.
Ela era livre, mas sentia-se presa, como se correntes invisíveis a prendessem em seus pesadelos mais terríveis e sanguinários, e o único lugar que ela sentia-se realmente segura era em seus livros, suas histórias e contos, onde a mais velha jamais poderia alcançar.
A nossa história começa num dia qualquer para as duas, acordavam cedo, se arrumavam e iam para a escola, a morena dava carona para a loura todos os dias, e quando não dava, a loura reclamava sempre. Neste dia, porém, a morena acordou com o coração apertado e uma dor tremenda no fundo da alma, o medo a abraçou frio e isso bastou para que levasse seu caderno de contos para a escola.
As aulas entediantes passavam devagar, e o medo da morena não tinha se dissipado, apesar de seus amigos estarem todos por ali, ela sentiu que algo dentro dela queria sair e se apoderar de sua mente. Suando muito ela pediu licença para o professor e correu até o banheiro, alguns poucos segundos depois o sinal tocava anunciando o fim da aula e o início do intervalo. A morena voltou para a sala e sentou-se no seu lugar, o pânico tomou conta de seu corpo quando percebeu que seu caderno não estava ali, revirou sua mochila e seus materiais embaixo da mesa. Nada! Em lugar algum. Seus olhos então percorreram a sala de aula e então ela a viu. A loura estava com o caderno em mãos, ao redor dela estavam seus amigos, rindo e apontando para a morena que rapidamente corre até lá e arranca o caderno das mãos dela.
-PORQUE VOCÊ FEZ ISSO? – a morena gritou com lágrimas tomando sua face.
-O quê? Não podia ler? – a loura ainda ria.
-NÃO, NÃO PODIA! – bradou a morena em fúria descomunal.
-O que mais tinha nesse caderno? Só suas histórias idiotas e sem sentido, e seus poemas.
A morena tremeu de ódio, e as lágrimas rompiam sua face, molhando a camisa branca do uniforme, todos pararam de rir, menos a loura que se pronunciou.
-Larga de ser criança, ta chorando só porque eu li? O que tem demais nessas histórias que nunca sairão do papel?
A morena sentiu algo explodir dentro de si, suas pernas cambalearam e as lágrimas se tornaram mais grossas, ela voltou a mesa, juntou os materiais e os jogou todos dentro da mochila, catou o caderno e sumiu porta afora, deixando uma loura para trás desentendida com tal ato.
E após isso, se passaram 7 dias que ela não apareceu mais na escola nem na vida da loura, o que foi muito tempo para todos que estavam acostumados com as brigas das duas. Quando iam atrás dela, ela nunca estava ou atendia ao telefone, a mãe nunca falava nada sobre a filha, pois a mesma ficava trancada durante todo o dia dentro do quarto, longe de tudo e de todos.
Na segunda-feira seguinte o sol não apareceu, e tudo estava cinzento, chamando a tempestade que não tardou em começar. O sinal avisava que aula estava começando deu início à tempestade predestinada. A luz forte de repente começou a piscar, a porta abriu sozinha com uma rajada de vento e uma sombra apareceu na porta e irrompeu na sala. Era a morena, só que não era mais a mesma. Os cabelos, que antes eram longos, alcançando seu busto, agora estavam curtos e repicados, com as pontas pintadas de preto.
Todos na sala se assustaram com tal mudança. O sorriso dela, antes animador e contagiante, agora nem se fazia mais presente em sua face pálida que indicava a leve anemia da garota se tornar um pouco pior. Estava magra em excesso, e seus olhos escuros estavam opacos, ela parecia estar morta.
A loura assustou-se com a morena daquele jeito.
À hora do intervalo demorou a chegar, e todos foram até a garota para ver o que tinham acontecido, mas ela mal respondeu uma palavra, apenas olhou para todos eles e disse.
- “Que a morte não me seja em vão.
Que meus pecados marquem minha pele como ferro quente.
E aqueles que um dia sentiram algo por mim, jamais sintam nada.”
Ninguém entendeu aquilo, mas a loura tremeu ao escutar aquilo. De repente, sangue começou a escorrer pela boca e pelo nariz da morena, e um sorriso se fez presente em sua face antes dela cair no chão. Todos foram para trás enquanto o corpo da garota ficava em volta de uma poça de sangue, gritos de horror e terror, todos saíram correndo da sala, menos a loura. A mão na morena segurava algo, um pequeno pedaço de papel. A loura o pegou e leu, suas pernas tremeram e ela começou a chorar desesperada, abraçando o corpo da amiga que estava frio.
O pedaço de papel era pequeno, e só tinha uma pequena e curta frase.
“Se para me libertar eu tenho que morrer então eu obrigarei meu coração a amar esse fim tenebroso. E finalmente estarei livre.”
E isso meus amigos, não é invenção ou coisa do tipo, é uma história real. A história de uma garota que só encontrou a liberdade quando obrigou seu coração a amar uma coisa que tanto tememos, ela abraçou o medo e se entregou a ele, como um casal de amantes.